terça-feira, 7 de maio de 2013

O Mendigo, A Mulher Grávida e O Travesti


O Mendigo, A Mulher Grávida e O Travesti 


      Saí na rua descalço, atravessei a faixa, cortei meu pé num caco de vidro mas nem senti. Cada passo que eu dava o estilhaço penetrava mais fundo no meu pé e escorria cada vez mais sangue. Era tarde da noite, estava precisando esquecer uma mulher e comprar mais cerveja. Um mendigo me parou.
            - Tem fita adesiva? - perguntei.
            - Só fita isolante.
            - Isso não serve.
            - O que você fez no pé?
            - Eu tava caçando.
            - Caçando? Mas sem uma arma?
            - Isso mesmo. É mais emocionante assim.
            - Se cuida. - falou o mendigo.
            - Pode deixar.
            Pelo menos não pediu nada. Continuei andando. todos os mercados estavam fechados, cansei de procurar. Peguei um ônibus no terminal. Sabia onde tinha um armazém aberto. O motorista e o cobrador ficaram encarando meus pés descalços. Desci no final da linha. Fui até o armazém. Lá encontrei uma antiga colega de escola. Ela estava grávida, olhou para os meus pés e perguntou:
            - O que aconteceu?
            - Fui assaltado. E você, o que aconteceu? - Perguntei observando sua barriga.
            - Um caso com o meu dentista.
            - Pelo visto ele fez o tratamento bem feito.
            - Eu acabei me viciando nas consultas. O que veio fazer aqui?
            - Comprar cerveja.
            - Mas você mora do outro lado da cidade.
            - Não tem muitos bares abertos essa hora da noite.
            - Vem, vamos lá pra casa, talvez eu tenha um par de sapatos do meu falecido vô.
            Ela comprou uns cigarros, mandou pendurar, eu peguei minha cerveja e a gente se mandou. Seu apartamento era velho, cabia apenas um refrigerador, uma cama e um Televisor. A tinta da parede estava descascando. Tentei abrir a janela mas tinha emperrado. Sentei na cama, ela veio pra perto de mim com uma cerveja.
            - E então. Onde está o dentista?
            - No trabalho, anda muito ocupado ultimamente.
            "Deve mesmo estar muito ocupado" pensei.
            Ela estendeu os braços pra baixo da cama e pegou um par de sapatos velhos.
            - Experimenta. Veja se serve.
            Calcei sem meias, o sangue do meu pé já tinha coagulado, descalcei-o novamente e joguei para o lado da cama. Ela se inclinou pra ligar a TV.
            - Por favor, não liga a TV. - Falei
            - Qual o problema?
            - É que eu tenho sofrido de psicose maniaco-depressiva e programas televisivos agravam minhas crises. - Já estávamos na segunda cerveja.
            - Se é assim.
            Deitou na cama exibindo sua barriga, era uma baita barriga, acendeu um cigarro e começou a falar, após a quarta cerveja começou a acariciar minha perna, levantei calcei os sapatos e me despedi.
            - Já vai?
            - Está tarde, os marginais do bairro já me juraram de morte se me vicem andando na rua a noite de novo.
            - Então é assim? - mudou o semblante de repente e começou a gritar.
            - PODE IR EMBORA! - me atirou uma lata de cerveja, eu desviei, me senti o Bruce Lee.
            Foi uma despedida nada amigável, eu não tinha planejado nada daquilo, de uma hora pra outra eu estava no seu apartamento, tudo muito imprevisível, se eu soubesse o que fazer nessas situações talvez não seria tão odiado, mas dane-se, o caminho de volta pra casa é longo.
            Entrei no ônibus, desci no terminal. segui pro meu endereço. No caminho cruzei com um travesti fazendo ponto, era alto e magro, tinha os ombros largos, me fitou.
            - Quanto está o toba? - perguntei.
            - Cinquenta mais motel.
            - Se não ta se valorizando demais.
            - Eu tenho que manter meu nível
            - Escuta, eu faço uma aposta com você.
            - Qual?
            - Se o seu instrumento for maior que o meu te dou cinquenta reais, caso contrário você me da o boot de graça. Fechado?
            - Você ta querendo me dizer que se o meu piu piu, for maior que o seu , ganho cinquenta sem fazer nenhum trabalho?
            - Isso mesmo.
            - Tá apostado.
            Tirei pra fora, era algo razoável, nada muito assassino  porém, sinceramente, quem eu queria enganar, era algo ridículo em vista daquele trambolho roxo cheio de veia saltada do travesti, quando ele puxou dei um pulo, era algo inacreditável.
            - Você me deve cinquentinha. - falou.
            - Tudo bem. - Fucei a carteira.
            - Só tenho quarenta e cinco. - falei.
            Quando olhei pra sua cara eu jurei que ele ia avançar pra cima de mim. "De novo" pensei. Estava farto de discussões. Mas ele pegou o dinheiro e guardou no sutiã.
            - Tudo bem, mas caí fora daqui!
            - Escuta, mas agora que você tem o dinheiro, bem que podia me prestar seus serviços, você já viu o meu pinto, é caucasiano não vai te machucar, aliás, você provavelmente não vai nem sentir nada.
            - Sai já daqui. - a voz ficou mais grave de repente.
            Pelas ruas encontrei o mendigo de antes, estava arrumando o colchão para dormir, provavelmente não ia ser uma noite boa pra ele.
            - Encontrou a fita? - perguntou.
            - Sim
            Peguei uma cerveja. Estendi pra ele.
            - Deus te abençoe. - falou.
            - Amém - respondi.

Nenhum comentário:

Postar um comentário