O Mendigo, A Mulher Grávida e O Travesti
Saí na
rua descalço, atravessei a faixa, cortei meu pé num caco de vidro mas nem
senti. Cada passo que eu dava o estilhaço penetrava mais fundo no meu pé e
escorria cada vez mais sangue. Era tarde da noite, estava precisando esquecer
uma mulher e comprar mais cerveja. Um mendigo me parou.
- Tem fita adesiva? - perguntei.
- Tem fita adesiva? - perguntei.
- Só fita isolante.
- Isso não serve.
- O que você fez no pé?
- Eu tava caçando.
- Caçando? Mas sem uma arma?
- Isso mesmo. É mais emocionante
assim.
- Se cuida. - falou o mendigo.
- Pode deixar.
Pelo menos não pediu nada. Continuei
andando. todos os mercados estavam fechados, cansei de procurar. Peguei um
ônibus no terminal. Sabia onde tinha um armazém aberto. O motorista e o
cobrador ficaram encarando meus pés descalços. Desci no final da linha. Fui até
o armazém. Lá encontrei uma antiga colega de escola. Ela estava grávida, olhou para os meus pés e perguntou:
- O que aconteceu?
- Fui assaltado. E você, o que
aconteceu? - Perguntei observando sua barriga.
- Um caso com o meu dentista.
- Pelo visto ele fez o tratamento
bem feito.
- Eu acabei me viciando nas consultas. O que veio fazer aqui?
- Comprar cerveja.
- Mas você mora do outro lado da
cidade.
- Não tem muitos bares abertos essa
hora da noite.
- Vem, vamos lá pra casa, talvez eu
tenha um par de sapatos do meu falecido vô.
Ela comprou uns cigarros, mandou
pendurar, eu peguei minha cerveja e a gente se mandou. Seu apartamento era
velho, cabia apenas um refrigerador, uma cama e um Televisor. A tinta da parede
estava descascando. Tentei abrir a janela mas tinha emperrado. Sentei na cama,
ela veio pra perto de mim com uma cerveja.
- E então. Onde está o dentista?
- No trabalho, anda muito ocupado
ultimamente.
"Deve mesmo estar muito
ocupado" pensei.
Ela estendeu os braços pra baixo da
cama e pegou um par de sapatos velhos.
- Experimenta. Veja se serve.
Calcei sem meias, o sangue do meu pé
já tinha coagulado, descalcei-o novamente e joguei para o lado da cama. Ela se
inclinou pra ligar a TV.
- Por favor, não liga a TV. - Falei
- Qual o problema?
- Qual o problema?
- É que eu tenho sofrido de psicose
maniaco-depressiva e programas televisivos agravam minhas crises. - Já estávamos na segunda cerveja.
- Se é assim.
Deitou na cama exibindo sua barriga,
era uma baita barriga, acendeu um cigarro e começou a falar, após a quarta cerveja começou a acariciar minha perna, levantei calcei os sapatos e me despedi.
- Já vai?
- Está tarde, os marginais do bairro
já me juraram de morte se me vicem andando na rua a noite de novo.
- Então é assim? - mudou o semblante de repente e começou a gritar.
- Então é assim? - mudou o semblante de repente e começou a gritar.
- PODE IR EMBORA! - me atirou uma
lata de cerveja, eu desviei, me senti o Bruce Lee.
Foi uma despedida nada amigável, eu
não tinha planejado nada daquilo, de uma hora pra outra eu estava no seu
apartamento, tudo muito imprevisível, se eu soubesse o que fazer nessas
situações talvez não seria tão odiado, mas dane-se, o caminho de volta pra casa
é longo.
Entrei no ônibus, desci no terminal. segui pro meu endereço. No caminho cruzei com um travesti fazendo ponto, era alto e magro, tinha os ombros largos, me fitou.
Entrei no ônibus, desci no terminal. segui pro meu endereço. No caminho cruzei com um travesti fazendo ponto, era alto e magro, tinha os ombros largos, me fitou.
- Quanto está o toba? - perguntei.
- Cinquenta mais motel.
- Cinquenta mais motel.
- Se não ta se valorizando demais.
- Eu tenho que manter meu nível
- Escuta, eu faço uma aposta com
você.
- Qual?
- Se o seu instrumento for maior que
o meu te dou cinquenta reais, caso contrário você me da o boot de graça.
Fechado?
- Você ta querendo me dizer que se o
meu piu piu, for maior que o seu , ganho cinquenta sem fazer nenhum trabalho?
- Isso mesmo.
- Tá apostado.
Tirei pra fora, era algo razoável,
nada muito assassino porém, sinceramente, quem eu queria enganar, era algo
ridículo em vista daquele trambolho roxo cheio de veia saltada do travesti,
quando ele puxou dei um pulo, era algo inacreditável.
- Você me deve cinquentinha. -
falou.
- Tudo bem. - Fucei a carteira.
- Só tenho quarenta e cinco. - falei.
- Só tenho quarenta e cinco. - falei.
Quando olhei pra sua cara eu jurei
que ele ia avançar pra cima de mim. "De novo" pensei. Estava farto de
discussões. Mas ele pegou o dinheiro e guardou no sutiã.
- Tudo bem, mas caí fora daqui!
- Escuta, mas agora que você tem o
dinheiro, bem que podia me prestar seus serviços, você já viu o meu pinto, é
caucasiano não vai te machucar, aliás, você provavelmente não vai nem sentir
nada.
- Sai já daqui. - a voz ficou mais grave de repente.
- Sai já daqui. - a voz ficou mais grave de repente.
Pelas ruas encontrei o mendigo de antes,
estava arrumando o colchão para dormir, provavelmente não ia ser uma noite boa pra ele.
- Encontrou a fita? - perguntou.
- Sim
- Sim
Peguei uma cerveja. Estendi pra ele.
- Deus te abençoe. - falou.
- Amém - respondi.